Muitos gestores dirão que sua empresa, ou a empresa para qual trabalham, tem uma cultura meritocrática, isto é, valoriza, através de melhor remuneração e influência quem de fato entrega resultados. Será mesmo?
Nossa experiência indica que normalmente isso não ocorre. Quando a meritocracia existe, há diferenças significativas de remuneração para pessoas teoricamente em posições similares. Os bons funcionários, aqueles que efetivamente fazem a diferença, ganham muito bem, acima do que ganhariam no mercado. Não há excesso de funcionários – pelo contrário, todos precisam trabalhar com eficiência. Aspectos como tempo de casa pesam pouco ou nada naquilo que o funcionário recebe. Em empresas meritocráticas, a cultura é fortemente influenciada pelos resultados e metas.
Sim, a meritocracia é, ao menos inicialmente, dolorosa, conflituosa. Nossa cultura é mais coletivista do que a norte-americana, por exemplo, e busca a harmonia e não o conflito. E nossa legislação trabalhista ainda engatinha no que se refere à flexibilização de regimes de remuneração visando recompensar corretamente os melhores.
Muitos funcionários ficarão insatisfeitos; talvez até deixem a empresa, caso se sintam prejudicados. Mas, se o sistema for justo, bem explicado e se todos tiverem a chance de se adaptar, muito provavelmente os insatisfeitos serão mesmo os de desempenho inferior. E, convenhamos, é preferível que esses sejam os insatisfeitos – e não seus melhores colaboradores, que provavelmente considerarão um sistema meritocrático como uma grande oportunidade de desenvolvimento e trabalharão com ainda mais vontade.
Diversas empresas brasileiras, até por influência da competição externa e do fluxo crescente de informação, desenvolveram fortes culturas meritocráticas. Talvez a mais reconhecida seja a AmBev, que hoje, através da associação com a Interbrew, é a maior cervejaria do mundo. E a gestão é dos brasileiros, ainda que sejam minoritários na composição acionária.
Pode ser difícil implantar um sistema meritocrático de uma só vez. É possível, porém, criar estímulos e sinalizações, como bonificações para idéias que contribuam para o resultado, homenagens internas para os de melhor desempenho, valorização via cargos, remuneração variável atrelada à performance e, importante, evitar a valorização de colaboradores que, no final das contas, pouco trazem de resultado à empresa, especialmente se sua empresa prega a meritocracia: nada pode ser mais desmotivador do que um discurso que não encontra respaldo na prática.
[...] Meritocracia: sua empresa realmente aplica?, Marcelo analisa a meritocracia nas empresas. Uma das frases dele é “nossa experiência indica que normalmente isso não ocorre”. [...]